Descendentes de Ibrahim Nahri

Info. Históricas


4. Issa Hiar

Issa sempre foi trabalhador e muito brincalhão. Não se sabe muito da infância dele, só que quando era pequeno, no Líbano, ele ficou cego, talvez devido à luz do sol no deserto, e a família o levou a um curandeiro da vila em que morava em Miniara e este o queimou na cabeça com um ferro quente e a visão voltou. Tinha os olhos bem clarinhos, como seus irmãos.

Por um tempo ele foi mascate e um dia disse à mãe que queria trabalhar sozinho e foi para o interior. Um dia ele pegou umas meias, bijouterias, estas coisas e saiu por um caminho, no mato, onde não tinha uma alma viva. Apareceram três malandros com três cavalos. Ele falou, "Estou perdido, eles vão me matar... levar a mercadoria leva, mas me matar?" Ficou desesperado! Aí ele falou, "Meu São Jorge me ajuda!" Diz que ele olhou assim e veio um cavaleiro branco, montado a cavalo branco, todo de branco. Quando eles viram o cavaleiro vindo assim disseram entre si que deveria ser um cavaleiro muito rico, e fugiram. Deixaram o Issa em paz e não levaram nada. Aí ele largou a profissão de mascate e voltou do interior.

Parece que ele não gostou muito quando sua mãe Marie uniu-se a Assad Feres e ele tinha sentimentos amargos sobre a situação, especialmente pelo fato de que ela estava tendo filhos com ele. A tia Genoveva conta que um dia, sendo ela bem pequena, ele quase a afogou quando ela estava tomando banho. Numa briga feia ele fugiu de casa e foi morar em Buenos Aires, o que fez a Marie chorar muito. Ela sofria tanto com a ausência do filho que o senhor Assad mandou buscar o filho dela em Buenos Aires onde souberam que ele vivia e parece que vendia jornais.

Contam que o primeiro contato que teve com Nour foi num dia de carnaval e ele a assustou com um pepino, fazendo que era um xeringa de carnaval. Ele perguntou a um primo quem era a moça e em três meses estavam casando. No dia do casamento de Issa e Nour, o senhor Assad fez uma linda festa em estilo árabe para o enteado, onde ele, Assad, dançou uma dança da espada para alegria de todos os convidados.

Houve uma época, nos anos 40, em que a Nour preparava cabeça de carneiro para ele. Ele matava muito carneiro para os vizinhos no Tatuapé que tinham dó dos bichinhos. Ele matava os carneiros, tirava a pele e entregava. As pessoas davam de presente a cabeça do carneiro. A Nour cozinhava, mas só ele comia.

Ele teve uma quitanda que mantinha na frente da casa que comprou no Tatuapé, na Rua Henrique Sertório, No. 292. Na quitanda trabalhavam ele e a esposa Nour. Conseguiram pagar a casa e criar os filhos, sempre trabalhando duro. Nós o chamávamos de Gedo (avô em árabe) mas alguns o chamavam de Seu Luís. Eu me lembro dele de madrugada indo ao CEASA (um mercado atacadista fornecedor de mercadoria para as feiras livres em São Paulo). Ele ia bem cedo para comprar as coisas que vendia na barraca onde trabalhava. Ele trabalhava lá todas as terças-feiras.

Lembro dos seus dedos tortos de tanto trabalhar duro, das mãos calejadas, do bigode, da sombrancelha grossa e do cigarro de palha que ele mesmo fazia religiosamente. Lembro dele picando o tabaco, colocando na palha e enrolando com cuidado, depois ascendendo com o mesmo isqueiro que também havia se tornado marca registarda dele (era de metal e ele o carregava com o fluido de isqueiro e de vez em quando me deixava carregar o mesmo). Um pouco do tabaco ele usava para colocar no álcool e eu usava quando me machucava.

Adorava dar frutas para os membros da família. A Nagila conta que quando o Gedo ia no mercado ele sempre levava para ela penca de banana que eram sempre verdes. O Jamilzinho (Assad) lembra de quando ele chegou em Perus com uns maracujás gigantes. A Rose lembra que as crianças esperavam ele chegar ao quintal, na Rua Henrique Sertório, com o carrinho de frutas porque ele sempre dava uma para cada uma delas. A Faduad lembra como ele levava um saco de estopa em Perus e ajudava as meninas pegar jabuticabas da fazenda do vizinho.

Ele me levava à linha do trem para ver a "Maria Fumaça". Eu ficava desenhando na areia e ele ficava admirando os meus desenhos. Como eu gostaria de saber o que ele pensava o tempo todo que a gente ficava sentado lá observando a linha do trem. Talvez lembrava de seus pais e irmãos. Ficava sentado fumando seu cigarro de palha, pensando, pensando.

O Jamilzinho Assad me contou que o "tio Issa" (Issa Hiar) ia muito a Perus. Eles adoravam as suas visitas porque ele contava as histórias de pescarias. Um dia ele levou um monte de maracujá gigante para todos. Ele teve um pé de maracujás enormes no Tatuapé. Levou a Perus uma muda para o Jamil Assad e o pé cresceu bastante. Ele era muito querido por lá. Visitava muito.

Ele era engraçado. Uma vez numa festa ele colocou uma pimenta num lanchinho só para ver quem ia pegar e rir da cara da pessoa. Só que quem pegou o lanchinho premiado foi ele... e todos rimos muito. Uma vez ele queria dormir e a Denise estava dando um baile no quintal. Ele saiu de cueca, subiu numa cadeira de ferro que havia na varanda e mandou todos embora. Todos na verdade riram muito de ver um velho de cueca em cima de uma cadeira gritando bem bravo. Mas depois de um tempinho a turma entendeu e se foi...

De vez em quando eu ia com ele assar esfihas. A minha mãe fazia um montão de esfihas e colocava numa sacola que ele levava para assar no fogo de lenha de uma rotisseria. Para mim demorava uma eternidade. Eu ganhava trigo cozido que comia enquanto escutava o meu avô falando árabe com o homem da loja. Quando estavam prontas o cheiro das esfihas era como mágica. Quentinhas na sacola era uma tentação mas tinha que esperar chegar em casa. Minha mãe, Olga, abria a sacola orgulhosa de sua obra de arte e feliz ao ver-nos saboreá-las com tanto gosto.

Muitas noites eu dormia no quarto dele. A gente chamava o quarto de "o quarto lá em baixo". De vez em quanto ainda sonho com aquele quarto. Ele me contava histórias das mil e uma noites. Lembro do homem que se transformou em fumaça e passou pela fechadura da porta para falar com a princesa. Lembro da romã cujos caroços eram rubis. Ele me contava histórias até eu dormir. Muitas vezes eu dormia na mesma cama com ele. Eu me sentia seguro durante a noite. Ainda posso sentir o cheiro forte de tabaco. Posso ver o criado mudo onde ele guardava a tesourinha de unha, os anzóis (ele gostava de pescar) os chumbinhos, seus documentos. Tenho comigo estas coisas e de vez em quando o visito tocando cada uma delas como se ele me tivesse deixado pegá-las na mão novamente.

Um dia eu havia ido com a minha mãe num cinema onde ela trabalhava. Pegamos uns dois ônibus para voltar para casa. Era tarde e era o último ônibus. Ficamos tão felizes quando vimos o Gedo vindo em direção ao mesmo ônibus. Ela nem acrediava. Ele havia ido visitar uns parentes e estava voltando. Os dois sentaram no mesmo banco e conversaram a viagem toda... em árabe. Eu não entendi nada, mas uma coisa eu entendi que é o mesmo em qualquer idioma: que eles tinham um amor e respeito muito grande um pelo outro. Minha mãe cuidou dele até que a doença o levou. Eu lembro como ele gostava de comer e como ficava triste quando o câncer não o permitia mais. Lembro da última vez que ele descascou um abacaxi que trouxe da feira, na mesa da nossa cozinha.

O Gedo se foi em 1974, de câncer no estômago. A sua irmã, Jalile faleceu nove meses antes dele. Um dia a Amélia e a Faudad vieram visitá-lo e perguntou da mãe delas (a Jalile) e elas, mentindo, disseram que ela estava bem. Ele agradeceu a notícia e até o dia da morte não soube que a irmã já havia partido. No dia da sua morte, a minha mãe havia chegado em casa cansada e nunca falhava de ir ao hospital. O tio Waldemar acho que foi o último que o viu com vida. Ele havia ido visitá-lo e minha mãe naquele dia não foi. Antes de ir dormir ela disse que a casa toda cheirava peixe. Era seu favorito. Ela não gostou da premonição e eu lembro quando bateram no portão aquela noite. Eu estava dormindo com ela na cama do quarto dela. Ela abriu a janela e o homem perguntou se era a casa do senhor Issa Hiar. Ela confirmou e ele deu a notícia. Ela chorou muito porque queria ter estado com ele na última hora. Eu nunca vou esquecer aquele dia, o dia que o Gedo se foi. O seu irmão, o Abrahão Hiar, sentiu que devia visitá-lo e veio de Santa Catarina para vê-lo no hospital Ao chegar estavam muitos da famíla lá, que haviam recebido a notícia de que ele havia falecido. O tio Abrahão ao ouvir a notícia ficou parado na rua, com os olhos vazios, olhando para nada, chocado com a notícia que recebera. Ele veio visitar e não teve tempo de despedir-se do irmão.

Ele foi sepultado no Cemitério da Quarta Parada, no bairro do Tatuapé, em São Paulo.


Nour Abdo Jargiura

Ela veio ao Brasil com 19 anos, num navio chamado Valdivia, que desembarcou no Rio de Janeiro no dia 15 de Dezembro de 1920. Nascida em Bsous, seu destino era casar com um árabe. O tio Salim Rachid namorou e ficou noivo dela. Um dia eles sairam e ela pegou no braço dele. Ele ficou ofendido com aquilo. Uma moça não pegava no braço do rapaz! Desmanchou o noivado. Um dia o Issa Hiar, ao vê-la passar a assustou com um pepino, como se fosse uma xeringa de carnaval. Ela o chamou de antipático, em árabe. Dois dias depois ele estava pedindo a mão dela em casamento e três meses depois estavam casando.

Tiveram sete filhos dos quais dois morreram jovens. Quando morreu o seu segundo filho, com 12 anos, ela até tentou suicídio correndo para um barranco onde ela tentou se jogar porque passava um trem. E as pessoas foram segurar. Havia morrido um com quatro e um com doze quase na porta de casa. Ela ficou muito triste e desesperada. Nunca esqueceu os filhos que se foram. Sempre quiz ter um filho chamado Jorge, mas quando o Abdo morreu, ela resolveu dar ao tio Jinho, o nome de Abdo, o nome do seu pai e do falecido filho. Porque o que ela queria mesmo era Jorge, o menino sempre foi chamado Jorginho, e daí o apelido Jinho.

Não tinha muita paciência e conta o tio Jamil que quando ele tinha uns 9, 10 anos ele ia ajudar a tirar leite das vacas numa leiteria na rua Jacirendi. Ela detestava a idéia e como não conseguia convencê-lo de não ir, o amarrava à goiabeira no quintal da casa da Rua Henrique Sertório. Para seu azar, o Rage, seu primo não serviu exército porque o sangue dele era perfeito para a esposa de um militar que precisava de doação de sangue constante. Este Rage morava com eles, e era com o seu cinturão de militar que a vó Nour batia no tio Jamil para ele parar de tirar leite das vacas. Ela era severa mas levava os filhos para passear de bonde para a Penha ou Ipiranga, quando ia visitar as primas.

Se gostava ou não, ela ficava muito na quitanda que o Jamil Issa ajudou a abrir com o dinheiro que ganhou numa acordo que fez na Santista ao deixar o emprego de Contrameste. A vó Nour abriu a porta da frente e fez uma quitanda. Ficava na quitanda a maior parte do tempo e apesar de severa ela tinha dó quando uma pessoa roubava um tomate ou algo que ela via. Ela deixava para lá. Vendia de tudo: frutas, verduras, até galinha. Ela levantava cedinho enquanto o Gedo dormia e ia para a quitanda. O Gedo também acordava cedo para comprar coisas para a quitanda. Os dois se esforçavam muito.

Ela teve um ameaço de derrame e ficou com a mão tremendo mas continuou trabalhando na quitanda assim mesmo. O derrame que a fez tremer atrapalhou mais foi o seu passatempo favorito, o crochê. Ela fazia tapetes com pedaços de meias de algodão, tapetes redondo que usavam nas casas. Sua sala era muito bonita, com aqueles móveis antigos, uma cristaleira, tudo bem arrumado e bem limpinho. Ela gostava das sobrinhas e fazia mingau quando elas chegavam para visitar.

A Fadua, de Santo André, lembra que a Nour lhe mandava café com pão e manteiga toda a tarde na fábrica onde trabalhava. Quando o Nassry Sader, filho da prima dela Josephina Sader, de São João de Ariranha, foi para o Líbano, ele trouxe um anel para a Nour. Como lembra o Jamilzinho, a casa no Tatuapé parecia um ponto de parada para a família e uma lembrancinha para a Nour não podia deixar de acontecer. Ele mesmo, o Jamilzinho, disse que ia brincar com os primos e para comer as coisas que a Nour fazia. Sua imaginação para cozinhar era até interessante porque quando chegava uma pessoa e ela queria servir uma salada, ela ia na quitanda e pegava uma folha de cada pé de alface. Não era nenhum segredo para o sabor da salada. Ela queria era vender todas as cabeças de alface e uma folha de cada uma não ia fazer falta aos frequeses, mas uma alface inteira ia fazer falta no orçamento.

Ela ficava muito contente com cada neto que nascia. Gostava de cuidar da Denise, filha da Olga, como se fosse uma boneca. Mas às vezes ficava nervosa porque a Denise não queria fazer lição e lhe puxava o rabo de cavalo fazendo a menina gritar. Quando nasceu o primeiro filho do Jamil Issa, seu filho, ela pediu se ele podia dar ao menino o nome de Jorge. O Jamil e a Alice concordaram e ela ficou bem feliz. Tanto ela queria um Jorge que até o último dia o tio Jinho foi chamado de Jinho como abreviação de Jorginho, mas o seu nome mesmo era Abdo.

Ela recebia as primas dela no domingo. O tio Salim, que havia sido seu noivo, a visitava sempre, mas o seu coração pertencia a uma prima dela com quem acabou casando, mas a Nour sempre foi uma boa pessoa. Ela fazia sempre comida árabe aos domingos para não só a Jalile e as primas, mas sempre tinha a porta aberta para a famíla.

Quando ela morreu cada um ficou com uma coisinha que a Olga que morava com ela então distribuiu entre os irmãos.


11. Nagib Issa Hiar

Ninguém contou muito da vida dele, mas dizem que era muito inteligente. A Olga contava que o apelido dele era Barão porque sabia tudo e a mãe e o pai se orgulhavam muito dele dando a ele privilégios que os outros não tinhan. Estavam brincando na rua quando um caminhão passou e o atingiu na cabeça.

O tio Jinho contou que lembrava do velório dele que foi na sala da Nour. Lembra do menino sobre a mesa, um travesseiro sobre sua cabeça e os parentes todos lá para o velório. Depois sairam todos a pé para o Cemitério da Quarta Parada onde o enterraram. Foi motivo de desespero para Nour que quase se suicidou. Ela nunca esqueceu do menino.


12. Abdo Luiz Hiar

Um primo da Nour, chamado Elias, foi morar perto da casa dela. A Nour ajudou-o a conseguir um lugar numa chácara que ficava em frente da chácara da Marie, no Tatuapé. Um ele veio buscar o priminho, Abdo, para brincar. Ele levou o menino para nadar, mas não sabia que o menino não ia conseguir vir à tona e empurrou a criança, então com quatro anos, no rio. A perda do menino foi muito grande para a Nour que sofreu muito assim como todos os outros da família. Ela porém carregou esta dor para o resto de sua vida.


5. Faduad Elias

Ela era conhecida como Tia Vitória, morreu com 25 anos e foi sepultada no Cemitério da Quarta Parada, no bairro do Tatuapé, em São Paulo.


Jorge Miguel

Ele era conhecido como tio José. Teve uma fazenda em Barretos onde empregou muitos parentes, entre eles o Elias Hibrahim Gattas que casou-se com a Jalile, sua sobrinha.


17. Aziz Miguel

Coloquei o ano de nascimento do Aziz 1915 porque o seu irmão Rage nasceu em novembro de 1918. Sua mãe engravidou do Jorge, o último filho, 1 ano e quatro meses após o nascimento do Rage, portanto considerei um filho por ano após o casamento com o Jorge Miguel pai.

O ano da morte do Aziz eu coloquei baseado no fato que quando a sua tia Jalile estava grávida da Servula (Fifa) ele a visitou um dia, sendo já moço (mais ou menos 15 anos), e disse "Tia, se você tiver um menino pode chamá-lo de Aziz?". Pouco depois, enquanto seu irmão Salim Miguel limpava uma arma de fogo que possuía, a arma disparou acidentalmente ferindo fatalmente o Aziz. Um dia depois, durante a visita da Tia Jalile, ele morreu nos braços dela. A Tia Jalile deu à filha o nome de Servula Azizi Abrahão em homenagem ao sobrinho.


Jamile Salim Nachle

Foi sepultada no cemitério do Brás.


25. Victoria Elias

Tenho memórias ternas da tia Vitória assim como todos que a conheceram. Se um dia encontrar os parentes dela que puderem me falar da sua infância e juventude seria uma vida interessante de contar. Ela nunca se casou e assim nos visitava sempre e nos levava para sua casa de vez em quando para ficar lá. O nosso primo Reynaldo, sobrinho dela, morou em seu apartamento por muitos e muitos anos, como se fosse filho dela.

Eu me lembro de quando era pequeno e ela me levava para o apartamento no bairro do Braz. Lembro do cheiro do Braz, da entrada do prédio, da entrada do apartamento. Do lado direito tinha um quarto onde ficava a tia Jamile até que a tia Jamile morreu em 1968 (eu tinha 10 anos). Passando mais adinante tinha a cozinha do lado direito onde ela sempre tinha uma jarra com água e sal e cubos de queijo fresco. Ficava uma delícia e ela punha no pão para mim. Ela fazia chá preto que eu não gostava porque era muito amargo mas eu adorava o cheiro que ficava na cozinha. Tinha um terracinho que saía da cozinha, do lado direito, onde ela tinha um tanque pequenininho e pendurava a roupa para secar.

Seguindo o corredor do apartamento ficava a sala, com um sofá do lado direito, uma mesinha de centro, uma cristaleira, e uma TV. Mais adiante do lado esquerdo tinha o quarto dela onde eu dormia com ela, do lado do quarto o do Reynaldo e ao lado do quarto dele o banheiro que tinha uma banheira onde eu ficava um tempão na hora de tomar banho brincando com um barquinho que eu sempre encontrava lá quando ia visitar.

Eu me lembro de um aniversário dela em que ela fez tanta comida e veio tanta gente que nem cabia no apartamento. Tinha chick bárak, kibe, esfihas, charutinhos de uva e repolho, tripa cheia (eu adorava tripa cheia, com grão de bico, bem temperdadinha). Não sei porque aquela festa ficou na minha cabeça. Eu escrevo e posso ouvir as vozes ecoando no apartamentozinho.

Quando eu entrei para a Igreja Mórmon ela ia de vez em quando com a minha mãe ou para ir na reunião de domingo ou para me prestigiar num teatro ou num show de dança. Sua voz era aguda e divertida. Ela chegava no quintal e chamava a minha mãe: "Ooooolgaaaaa!" O que eu não daria para ouvir aquela voz uma vez mais! Ela sempre visitava a minha mãe. Um dia foram juntas ao cemitério da Quarta Parada, se não me engano com a Fáduad também, e a tia Vitória ficou com sede. Tinha uma torneira no cemitério e ela foi beber daquela água. As primas acharam uma loucura e a Olga disse para ela que era perigoso mas ela não ligou. Não passou muito estava com hepatite e morreu em questão de dias. Ainda me recordo do velório dela. Eu deixei umas palavras inclusive mensionando que era feliz porque minha filha Edilaine nasceu parecendo com a tia Vitória (havia uma semelhança no rosto da Edilaine de pequena que não se podia negar). Eu me lembro da Ivone, sua irmã, chorando, e dos outros parentes presentes. Ela me aparece nos sonhos mais que qualquer outro parente e de vez em quando me vejo em lugares remotos lembrando dela e nem sei porque. Tem coisas que a gente não esquece e pessoas que nunca saem da nossa lembrança. A tia Vitória sempre será uma delas.


7. Jalile Elias Issa Hiar

Para proteger-se do inverno do Líbano, eles costumavam cobrir as casas com um barro que alizavam ou firmavam com um ferro. Quando faziam isso uma vez, por algum motivo quando a Jalile tinha 2 anos, a colocaram no teto da casa (alguém não quiz deixá-la sozinha lá dentro por algum motivo). Ela caiu do teto da casa ficando com a boca torta. A família a levou a um curandeiro da comunidade onde moravam. Ele estava todo vestido de preto e usava uma sandália, a qual tirou do pé e bateu com força no rosto da criança, colocando a boca da menina no lugar. Uma prática um tanto drástica para os dias de hoje, mas completamente normal no Líbano no início do século 20.

Quando sua mãe Marie imigrou para o Brasil, ela ficou no Líbano, na casa de uma tia (irmã de Marie), com o seu irmão Ibrahim, conhecido na família como o tio Abrahão. Ela era bem bonita e bem teimosa. Ela e o tio Abrahão vieram sozinhos. Ela estava com 10 anos e o tio Abrahão com doze. Deu uma tempestade no mar e saía areia do fundo do mar para cima. Estavam num navio italiano que acabou afundando e um barco alemão resgatou a todos. Ela chegou cheia de piolho e descabelada mas o dinheiro ainda estava amarrado na sua cintura.

Quando ela chegou no Rio e ela viu um libanês, que era patrício e ela falou em árabe "Abrahão, Abrahão, olha o Issa!", porque era um patrício de Miniara. Quando ele viu a Jalile, ele disse "Jalile que você está fazendo aqui? Duas crianças sozinhas! Espera que eu vou levar vocês na casa da minha irmã para tomarem um banho e aí eu mando vocês de trem para São Paulo". No Rio de Janeiro, uma cidade grande já na época, início da década de 10, a moda avançava seguindo os etilos europeus e ela se apaixonou por um chapéu com umas uvas penduradas. Fez o maior escândalo no caminho à casa do homem porque queria o bendito chapéu. O irmão, Abrahão, teve que comprar porque ela chorou e esperneou até conseguir o que queria. Eles tomaram banho e se alimentaram e foram de trem, sozinhos novamente, para São Paulo.

Chegando em São Paulo, outro libanês que era patrício os reconheceu. Ele perguntou onde eles queriam ir. Eles disseram "Nós queremos ir para a casa da mamãe." Ele disse que ia levá-los à chácara que era também uma pensão na Penha, uma chácara enorme da Celso Garcia até o Rio Tietê. O homem chegou com as crianças e as deixou na sala. Dirigiu-se a Marie na cozinha e em árabe dizia que tinha um cravo e uma rosa para ela. Ela dizia que não gostava da brincadeira, que ele estava mentindo. Ele dizia que era verdade, que havia um cravo e uma rosa para ela na sala. Ela parou o que estava fazendo e o acompanhou à sala. Ao ver os dois filhinhos parados ali, ele todo orgulhoso de ter chegado do Líbano e tudo, e a Jalile linda no seu chapéu de uvas, não suportou a emoção e entre chorar e rir acabou desmaiando na sala.

Quando a Jalile ia no cinema com o Jamil eles se divertiam muito. Iam ver filme mudo, mas tudo era muito maravilhoso. Um dia ela estava torcendo para o mocinho e o menino atrás dela insistia em torcer para o bandido. Não se sabe se ele estava fazendo aquilo para provocá-la mas foi o suficiente. Ela levantou, pegou a bolsa e começou a bater no menino sem parar para alegria de todos no cinema.

A Marie estava com o Assad, e a Jalile lá não combinou muito. O tio Abrahão ficou com a Marie, mas a Jalile teve que ir embora para Barretos, morar com a irmã mais velha, Fadua (tia Vitória), casada então com o Jorge (Tio José), pai do Rage, que tinham uma fazenda. O tio José tinha um armazém de onde eles tiravam as bolachas Maria para as crianças comerem. O problema é que o tio José não gostava do barulho das crianças mastigando as bolachas crocantes. A Jalile então molhava as bolachas Maria no leite para o Salim, Fuad, Rage, etc. para que o tio José não escutasse. Em Barretos ela tinha uma amiga de cor, cujo pai trabalhava na fazenda. Nesta fazenda elas se divertiam muito e iam na outra fazenda pegar jabuticaba, cana, etc, sem o dono saber. Um dia o dono da outra fazenda pegou a espingarda para dar uns tiros nelas. Elas se jogaram no rio, no maior frio e ficaram lá escondidas até ele desistir. O irmão mais velho dela, Issa Hiar, até levava um saco de estopa e enchia de jabuticaba da tal fazenda (sem tomar tiro lógico) para a alegria das duas.

Nesta fazenda ela conheceu o Elias Abrahão Gattas (se diz "Ratas"). Ele era capataz na fazenda e com 19 anos casou-se com ela que então estava com 16. Ela trabalhava muito para colocar as filhas, Faduad e Servula, num colégio pago. A Amélia como já era moça, trabalhava com a Jalile. Depois de casada mudou o nome para Angelina, pois no Brasil se mudavam os nomes árabes com freqüência. Eles viveram dois anos no Rio de Janeiro onde ele trabalhou de mascate com o Silvio Santos que na época era mais conhecido como Abravanel. A tia Hanna, prima da Jalile, era dona da Rádio Nacional e os apresentou ao então famoso Ivan Cury na sua casa maravilhosa no Rio de Janeiro. O Elias a deixou para viver com uma portuguesa em Minas Gerais e não foi até uma briga feia que tiveram que ele parou de aparecer e perturbá-la. Ao falecer foi enterrada no cemitério Cristo Redentor, em Santo André, São Paulo, Brasil.


Elias Abrahão Gattas

Ele trabalhava de capataz na fazenda do Jafet. Conheceu a Jalile Elias Issa Hiar de 16 anos e casou-se com ela em 1916 ele tendo 19 anos. Casaram-se na Rua Pagé, numa Igreja Ortodoxa, em São Paulo. Ele depois passou a ser mascate, tipo vendedor viajante. Tinha festa em Barretos do peão boiadeiro e ele levava cobra, jacaré, e lagarto e fazia propaganda vendendo remédios falsos. Era bom de conversa e convencia muitos a comprarem seus remédios que na verdade eram mais água com açúcar que qualquer coisa... não curavam nada. Como coisa de filme ele tinha tudo combinado com a Jalile e a Amélia. Uma chegava perto como quem não queria nada e acabava comprando uns frascos. Depois vinha a outra e comprava um. Assim as pessoas passavam a sentir-se mais confiantes e compravam os seus.

Elias era muito namorador e acabou deixando a tia Jalile por uma portuguesa residente em Minas Gerais. Cada dois anos ele aparecia para pedir dinheiro para Jalile mas um dia ela ficou bem brava que ele teve a audácia de vir de novo com a palavra "massari" e ela machucou o tio Elias onde realmente dói... o que o deixou desacordado por duas horas no chão. Depois daquele dia ele nunca mais voltou. Morreu em Belo Horizonte, longe da famíla, e pouco se sabe dele.


31. Jorge Luis Aguiar

Filho adotivo da Jalile, que passaram a criar como seu filho. Ele era vizinho, e seus pais naturais são Mauricio Souza Aguiar e Rosalina Peixoto Aguiar.


8. Genefief Assad

Nasceu na Rua 25 de Março, onde moravam o Jamil seu pai e Marie sua mãe. Tanto ela como o Jamil, seu irmão, bem clarinhos. Não brincava com ninguém de pequenininha porque o pai dela não deixava. Ela assim que pôde ser enviada para uma escola, foi matriculada num dos colégios mais caros do Brasil. Ia no colégio de manhã e voltava à noite. Na escola usava uma saia azul marinho com uma blusa branca e um chapéu de palha. O chapéu depois mudou, era um com um cacho de uva (não confundir com o chapéu com uvas da Jalile). Com o passar do tempo a escola aboliu o chapéu. Mas ela tinha amigas daquela escola cujas famílias também tinham negócio na Rua 25 de Março.

Tinha uma amiga se chamava Josefina. A Genefief adorava azeitonas pretas grandes que ela sempre comprava na loja do pai da tal Josefina. A amiga gostava de esfihas, então ela trocava as esfihas por vinte azeitonas mais ou menos, que entrava em acordo com a amiga. Depois de muitos anos, já adulta, foi no casamento de gente muito rica e uma mulher veio perguntar quem a havia convidado. Ela disse que ela mesmo não conhecia as pessoas, mas que seu marido sim os conhecia. A mulher então identificou-se perguntando a ela se se lebrava da menina das azeitonas. Hoje a amizade continua através da neta de uma que é amiga da filha da outra.

Ela contou uma história de uma destas amigas da escola. A mãe da Juileta, sua nora, sofria de bronquite. O irmão da nora havia pedido que ela passasse um fim de semana com a mãe dele em Lindóia. Ela foi passar umas férias lá, num hotel muito lindo do qual até hoje lembra com admiração. Ficou com a mãe da Julieta por mais de um mês, porque ela precisava de descanso e gostava de falar em árabe com a Genefief porque não falava bem em português.

Um dia ela estava dormindo e a Genefief, com dó dela que parecia tão cansada, pegou uma Bíblia pequena que achou na gaveta do criado mudo, entrou no banheiro lindo todo de mármore, e foi ler um pouco. A amiga acordou, e chamava: "Genefief! Genefief!Wainik!" (Onde você está?), preocupada pois não sabia onde tinha ido parar a Genefief. A Genefief respondeu, "No Banheiro!", e a amiga perguntou, "Que está fazendo? Tomando banho?", Ao que Genefief respondeu, "Não, estou lendo a Bíblia que achei na gaveta!" o que fez a senhora que estava enferma e fraquinha rir para valer. Ela ficou animada e quiz descer para o saguão do hotel, onde ficavam passando gente rica que ficava naquele hotel. Sem querer encontram uma senhora, que Genefief não se recorda bem mas devia se chamar Olga. Quando a mesma perguntou seu nome e ela disse que era Genefief, a filha de um árabe, a tal senhora de imediato a reconheceu. Era uma das meninas da escola, seu pai era um milionário da Rua 25. Ela dizia, "Genoveva você? Sou eu! Você lembra de mim?" E a Genefief não lembrava e não podia mentir. A Genefief diz que ela deve ter lembrado porque era a única Genoveva no colégio e era bem gordinha. Disse que aos 10 anos pesava 61 quilos e que todos perguntavam para sua mãe como ela fazia para os filhos dela serem tão gordinhos.

O pai e minha mãe trabalhavam no restaurante que tinham e o pai não queria que ela ficasse no restaurante. Ele tinha uma lavadeira que se chamava Helene. Ele passou a deixar a Helene lavar a roupa deles em sua caa e levar a Genefief para ficar com ela. Os vizinhos pensavam que ela era filha da dona Helene e perguntavam porque a menina era gordinha e os outros filhos não. Aí ela explicava que só cuidava da Genefief que era filha da Maria do seu Assad.

A Leila me ligou do Líbano e eu perguntei o que foi? A Leila disse, estou sozinha, tô grávida mãe, estou sozinha, e eu fui para o Libano. O meu marido faleceu em Outubro, e quando ele faleceu, em Novembro eu fui para lá. Fiquei lá, tinha dó de voltar, mas quando vi guerra, acabou a guerras eu falei, eu vou embora, meu marido que era Libanès morreu no Brasil eu que sou do Brasil, vou morrer, eu não vou! Eu vou para o Brasil! E o meu genro dizia, fica aí, passa o Natal com a gente! E eu falei, chega já estou cansada! Vinha aquelas bombas! Um dia eu levei a menina no colégio, porque eles gostam muito do colégio, e o menino ia num outro colégio longe, ia de carro. Cheguei perto da escola, estava pronta para sair, e eu vi o avião, mas quando vinha aquele avião de bombardeio os vidros das casas quebravam todo, cai tudo os . Eu não sabia que era aquilo, pensei que era avião. Eu falei, Nossa Senhora avião aqui é diferente de lá. Olha no chão caiu perto de mim um pedaço de ferro vermelho e era um pedaço de bomba, eu queria por a mão. Aí a minha neta, Patrícia, me pegou pelo braço e eu comecei a falar árabe, e ela disse não põe a mão, isso é bomba! E eu não sabia.

Desde aquela vez o meu genro sempre que começavam os ataques a gente ia para as montanhas bem longe, ele pegou toda a família e levou nós todos. Quando vem a bomba vem aquele foquete e pega fogo em tudo. A minha filha de madrugada dormia com as crianças, mas eu e meu genro não conseguiamos dormir. Ele me chama de Ma táme que quer dizer minha tia (ele é parente de minha sogra) Libanês gosta de Libanês. Ele falava Ma táme vem cá vamos ficar perto um do outro que a Leila está dormindo e as crianças. Um dia ele chamou a mulher e os filhos e ficamos todos juntos porque íamos morrer jutnos, mas vivi.


Ahuad Elias Raya

O Ahuad, quando veio do Líbano para o Brasil, era um menino de mais ou menos 10 anos. A irmã dele era casada e o marido tinha tinha uma loja. A irmã dele falou para que ele aceitasse tudo que lhe oferecessem para não ofender aos brasileiros, porque as pessoas do interior eram assim. Ele não falava nada de português e tudo o que lhe ofereciam ele fazia com a cabeça que queria. Vinha café ele tomava, bolo de fubá ele comia, enfim, foi seguindo assim. Aí uma mulher ofereceu cigarro e ele não sabia o que era mas aceitou porque seguia as instruções da irmã dele. Quando a irmã veio pegar o menino ele estava todo tontinho. Ela não entendia o que havia acontecido e ele explicou o que a mulher havia dado para ele. Aí ela entendeu que ele havia fumado e ficou com o maior sono. A ordem era para aceitar, ele aceitou!

Ele casou com a Genefief e sempre tiveram loja. Vendiam vestido, aviamentos e tudo. Ele conhecia um senhor e ele cujos inquilinos não pagavam as prestações. Vendiam as mercadorias e ficavam com o dinheiro e assim a tal loja faliu. O homem dizia que sabia que o Ahuad era um homem honesto e a Genefief esperta. Assim que ambos ficassem com a loja, que ele vendeu sem que o Ahuad tivesse que dar a entrada. A esposa também trabalhava de costureira o que ajudava orçamento.

Um dia o filho deste homem disse eu estava precisando de uma caixa de meia, e veio. Antigamente haviam umas portas altas com com um vidro em cima. Ele tirava o vidro, entrava, pulava e roubava o que queria. Eles notavam que havia algo errado mas não sabiam o que era. Aí um rapaz que tinha o bar da esquina contou o que o menino estava fazendo e o Ahuad resolveu mudar-se de lá. Alugou uma casa na Rua Santo Antonio no Bela Vista. A loja não foi bem. Trabalhavam para pagar o aluguel. Na casa moravam ele, a mãe dele e a esposa com os filhos. Mais tarde ficaram sabendo de um armazém grande cujo dono faliu, fugiu e deixou a casa caindo aos pedaços. Ele náo queria , porque estava muido destruída, mas aproveitou a oportunidade. Reformou tudo e começaram a ir bem com a loja. Fizeram a vida naquela casa! Pagaram a loja e tudo.

Eles venderam a propriedade, queriam comprar uma outra. Ele disse,"Mas eu não tenho dinheiro!" Naquele tempo 200,000 era muito dinheiro. Foi falar com o tio dele, primo, milionário que não tinha filhas. Ele propôs que o tio comprasse a casa, e ele, Ahuad, pagara a prestação. Foi assim que foram parar na Moóca. Ele pegou 150,000 e restaurou a casa nova. Fez o casamento do filho, e pagou toda a dívida!

Nunca ficou doente, só uma vez que teve cachumba. Um dia foi trocar uma luz fluorescente. A Genefief falou para ele não subir no balcão alto mas ele subiu e caiu. Bateu a cabeça na fresta da janela mas não sangrou. Um dia ele não estava bom e ela falava para o William seu filho, mas este não aceitava que o pai não estava bom. O Assad era o homem de ferro! Ele teve um espasmo cerebral. Ficou três anos da cama, nunca mais se levantou. Quando ele faleceu a Genefief partiu para o Líbano para morar com a filha Leila, genro e netos.


9. Jamil Assad Feres

O Jamil Assad nasceu na Rua 25 de março e era tão branquelinho que nem podia ficar muito ao sol. O Assad e a Marie tinham então uma pensão e ele nasceu e foi criado lá. Ele foi estudar no colégio Sirio Libanes da Avenida Paulista. Se formou lá e depois foi morar na Penha onde faleceu seu pai. Jamil Assad lembra-se de quando o pai morreu, ele estava com 11 anos. Quando ele ia no cinema com a Jalile eles se divertiam muito. Sua risada era tão alta que o lanterninha vinha ver se conseguia convencê-lo a rir mais baixo.

Quando trabalhava em Perus eles moravam na Penha, havia racionamento de alimento. Cada família só tinha direito a ter um filão de pão. Mas o Jamil sempre achava uma maneira de negociar e quando vinha de Perus com pão embrulhado em jornal para ninguém perceber era porque tinha feito amizade com o padeiro de lá e o amigo dele quebrava o galho. Ele tomava o bonde e o trem para trazer pão para casa.

Ele e a irmã Genoveva foram registrados pelo registro civil da Rua Santa Efigênia. Ela se formou num colégio e ele se formou em outro. Os seus irmãos não combinavam com ele. Ele era criança e os outros eram crescidos. O pai dele devia pensar em como o menino ia viver com a minha mãe sem nada. Ela tinha idade e ele era criança. Depois de passado o tempo eles vinham e davam carinho para a mãe dele mas tentavam tirar dele a herança que recebera. Quando o Jamil ganhava uma questão eles tinham que pagar os gastos. Um deles perdeu uma vez e a Marie não fez o Jamil ir e pagar as custas do caso. Ele foi pagar e disse o irmão não tinha que pagar nada porque a mãe dele não queria. O irmão o recebeu friamente.

O Jorge, um dos irmãos dele por parte do pai veio visitá-lo um dia. Ele trabalhava na General Carneiro. Ele disse para o Jamil: "Meu irmão você se formou, você é mocinho, você tem que conhecer o outro lado da vida. Precisa trabalhar." O Jamil havia sido criado bem mimado, com toda fartura pelo pai rico e depois a mãe que ficou com as posses. O irmão havia ido trabalhar na 25 de março de balconista e o Jamil foi aprender a trabalhar. O irmão queria uma casa para morar. O Jamil ficou sabendo de uma casa e deve ter ajudado o irmão porque depois ficaram amigos.

Aí veio o outro irmão, o Feres, fazer as pazes com ele. Se tornou um milionário e já faleceu já faz uns anos. Um filho deste Feres morreu o Jamil foi ao enterro onde a mulher dele veio recebê-lo, e lhe deu um beijo. Ele sabia que finalmente havia recebido a aceitação que buscava dos irmãos do lado do pai.

Havia um primo que estava desempregado. O Jamil o convidou para ser sócio num negócio de contabilidade. Ele, Jamil, era bom na contabilidade e matemática. Havia se formado de guarda-livros e era o número um da classe. Fizeram o negócio na Rua Líbero Badaró, no Centro de São Paulo, que Jamil comprou de um outro senhor. Mas o sócio não acertava a conta com ele. Tiveram que acabar com o negócio. O Jamil deixou tudo com o primo e decidiu começar de novo.

Em 1931 casou com a Rosa com não somente a aprovação da Marie também com a bênção dela que gostava muito da Rosa. A Rosa sempre foi o seu grande amor e lembra com muito carinho dela. A Rosa influenciou em muitas das decisões que o levaram a ser bem sucedido na vida como se pode observar em sua história.

Um outro primo trabalhava na Singer vendendo agulhas. Ele pegou dinheiro emprestado do Jamil e nunca devolveu, mas apresentou o Jamil ao patrão quando quiz sair da Singer. O patrão do primo ficou bravo e não só deixou o primo ir embora como prometeu que não ia empregar o Jamil para tomar o lugar dele. Mandou o Jamil ir procurar emprego num banco na Rua das Palmeiras. Não deu em nada. Voltou para o tal gerente da Singer e insistiu (tinha uns 26 anos, 3 filhos, chorou as pitangas). Nada.

Estava desanimado mas a Rosa disse para ele insistir uma vez mais. O gerente tinha sido transferido e ele conseguiu o emprego. Tinha que vender 3 máquinas de costura por mês (9 em 90 dias) ou ia ser despedido. Vendeu a primeira e a Marie, sua mãe, faleceu. Estava casado fazia uns 6 anos. De cobrança ele ganhava 10% e de pagamentos à vista 15%. Deram para ele umas contas para cobrar que ia ajudar a ganhar dinheiro para o bonde, mas deram as contas ruins, difícil de coletar.

Ele usou a cabeça. Ia visitar a pessoa que devia três meses e ao receber as desculpas ele oferecia que a pessoa só pagasse 40 contos num mes, depois 50 no outro. Ele daria um recibo de dois meses ao primeiro pagamento e a pessoa ficava devendo para ele que era legal e não queria que a senhora perdesse a máquina de costura. Assim, ganhava a simpatia das pessoas e recebia para a Singer.

Ele era bom, mas o gerente estava preocupado porque uma máquina só em vez de três era problema. A esposa aconselhou-o a vender máquias de porta em porta o que ele achou um absurdo mas acabou escutando a esposa. Nas portas ele dizia: "Bom dia minha senhora eu sou vendedor da Singer e estamos com uma promoção. Sei que a senhora tem boa reputação no lugar e a Singer está facilitando a entrada assim e assim... e ainda por cima ajudo a senhora a trabalhar. Na rua José Paulino, mulher do judeu que dá camisa para fazer e a senhora pode trabalhar de costura e vai pagando". No primeiro mês ele vendeu três máquinas e no outro quatro. Ele era diretor de esportes juvenil e amador do Corínthians, e oferecia máquina de costura para as mães dos jogadores e assim vendia ainda mais. Mas os jogadores às vezes não gostavam dele porque ele foi nomeado fiscal e durante treinamento não deixava ninguém pular a cerca para sair com a mulherada.

Depois de dois anos havia vendido 200 máquinas. Bateu o recorde vendendo 20 máquinas num mês. Quando entrava na loja o gerente dizia que ele é que era vendedor. Que enquanto os outros estavam no cinema ele estava vendendo, o que era verdade. Um dia ele parou num bar para tomar um cafezinho e um sujeito viu o distintivo da Singer, e tendo sido vendedor no passado ofereceu um negócio em que ajudaria a vender máquinas à vista se ele compartilhasse a rendosa comissão de 500 mil reis para cada uma vendida. Vendia 3 máquinas à vista por mês rachando na metade a comissão com o sujeito.

Deu um problema nos Estados Unidos, e o preço das agulhas ia subir uns 30 por cento. Ao descobrir e ter a oportunidade de comprar umas 1.000 agulhas, pediu 2.000 e deu para a mulher dizendo que era ouro. Um gerente ofereceu a ele suas agulhas e ele acabou ficando com 20.000 agulhas. Um cara veio querer comprar e ele falou com a Rosa e decidiram pedir 50 por cento a mais que o valor, isto é, os 30 por cento do aumento por vir mais 20 por cento. O cara aceitou comprar metade e deu um cheque. Levou 10.000 agulhas e o cheque era sem fundo. O Jamil falou com a mãe dele, mas logo o cara voltou e o cheque tinha fundo. Ele só queria comprar tempo para vender as agulhas em Curitiba por ainda mais e fazer um lucro acima do que fez o Jamil, mas foi um grande susto para ele.

A Singer suspendeu as vendas devido à guerra e quem quizesse máquina só ia ver na outra geração (palavras do próprio Jamil). O gerente queria demiti-lo com uma compensação de dez contos de réis. Um oficial de justiça seu amigo, o Humberto, lhe disse para não assinar nada e pedir 20. O gerente quase o matou quando ele disse que não assinava o papel por menos de vinte mas não teve outra, teve que dar os vinte. Ele pegou o dinheiro e foi ajudar um primo que não tinha nada, fazendo sociedade numa loja em Perus. O negócio não foi para a frente. Haviam comprado tudo junto e o primo se foi, disse que com crédito já garantido ele ia viajar. O Jamil teve que visitar todos os credores e negociar a dívida. Lutou por 10 anos seguidos e pagou tudo.

A Rosa queria uma casa. Quando mudaram para Perus tinham cinco filhos e a única casa que era boa mesmo era a casa paroquial, ao ladro da Igreja, que estava desocupada. Não tinha casa em rua de asfalto, e a casa paroquial, apesar de grande, não tinha água encanada, luz, nada. Depois de passarem os anos havia um terreno que queriam e foi a Rosa que no fim convenceu o sujeito de vender o terreno para o Jamil que construiu a então melhor casa da cidade.

Passou mais ou menos uns 5 ou 6 anos e ele foi fazer compra. A Rosa ficava na loja e recebeu a um norte-americano que veio procurar o Jamil. Ele foi ver quem era e era um gerente da Singer. Foi na Lapa falar com o sujetio que queria conhecer o legendário vendedor. O americano lhe ofereceu uma feijoada e na conversa ofereceu que ele voltasse a vender máquinas de costura. O Assad tinha que vender 7, acabou vendendo 10. As pessoas vinham na loja e levavam a máquina nas costas. Como tinha dinheiro, o Assad vendia as máquinas a crédito e passou a ganhar mais dinheiro.

Se tornou importante na cidade de Perus. Com mais ou menos 47 anos foi na comissão da construção do grupo escolar no bairro. Ele pediu ao prefeito que desse um terreno que ele, Jamil, construiria a escola. Em trinta dias construiram a escola. A entrada para Perus, pela Anhanguera, sempre havia sido feia, de terra. Ele foi conversar com o prefeito de São Paulo que depois virou Presidente do Brasil, Jânio Quadros. Pediu ao Jânio ajuda para calçarem a entrada de Perus. O Jânio quiz saber que vantagem teria e o Jamil lhe ofereceu o material a troco do maquinário. O Jânio aprovou o uso das máquinas e a entrada de Perus se transformou. Hoje vive tranquilo em Santos e contou estas historias todos com muitos detalhes numa conversa que tivemos em dezembro de 2003, já com seus 89 anos e meio.


Rosa Abrahão

A Rosa surgiu na vida do Jamil Assad de uma maneira bem interessante. Ele tinha uma namorada antes de conhecer a Rosa, a Palmira, uma mulata com quem namorou por três anos. Ele pensava que gostava muito porque era bem boninta e tudo. Sua mãe, a Marie, não queria que o filho casasse com uma mulata. Um dia ele foi assistir um jogo no Corínthias e tomou um bonde para ir do Parque Antártica para o Belenzinho. Era o horário que tinha que levar a família no cinema e tudo, e ele chegou na casa da tal Palmira e a mãe ela disse que a filha tinha ido dormir, que estava muito aborrecida com ele, que ele chegou muito atrasado. Ele disse que tinha vindo de bonde, que o bonde demorou, e tal. Ela foi chamar, ele ouviu a conversa mas a mãe dela o dispensou. Ao sair ele ouviu a dita cuja chamando. Voltou e ela disse que ele chegou fora de hora e que não precisava voltar mais e bateu a porta na cara dele. Ele não voltou mais.

Começou a namorar uma loirinha perto da casa dele, que tinha uma farmácia. Um dia foi lá comprar comprimido e chegou uma moça. Ela lhe disse que uma fulana lá no cinema estava esperando por ele, com a mãe dela. Ele não conhecia a mocinha mas achou que ela era linda e logo perguntou se ela tinha algum compromisso, e se não queria dar uma voltinha. Ela aceitou e bem aí ele se apaixonou pela moça, que era a Rosa Abrahão. Segundo suas próprias palavras foi quando ele aprendeu que "gostar é uma coisa e amar uma mulher é muito diferente." Gostar e se apaixonar, pode ser paixão de desejo, mas com a Rosa era amor de verdade. A Marie lhe disse que queria que ele casasse com a Rosa. Ele disse "A senhora quer que eu case?", e em três meses casou-se com a Rosa.

A família da Palmira foi na loja onde ele trabalhava dizendo "Jamil você vai casar? Se você casar é um homem morto! Eu vou te matar! Fico três anos aí, namorando e agora casa com outra?" Ele disse a ela que podia esquecer, que mulher que batia a porta na cara de um homem não merecia respeito. Casar com a Rosa para ele foi a maior felicidade de sua vida. Ele conta que ela não reclamava, não fazia fofoca, era maravilhosa. Ele saía para fazer a concentração do Corínthians e ela cuidava da Marie. Vivia mais com a mãe dele do que ele mesmo. Era uma companheira impressionante. Quando queriam que ele ficasse mais tempo na concentração ele pedia para desculpar ele tinha compromisso em São Paulo... a esposa dele.

Ele disse que a Rosa era a moça mais bonita do bairro onde ela morava. Ela trabalhava numa fábrica de uns sírios, e eles fizeram um concurso de beleza e ela foi a primeira colocada. Ele disse que a beleza dela era incrível e ela tinha adoração pela família dele e assim se apaixonou... Ela sempre foi um apoio muito importante na vida do Jamil, sendo parte essencial do seu sucesso. Foi morar em Perus e esperou por muitos anos para ter uma casa bonita, com comodidade, numa rua asfaltada e tudo. Foi ela mesmo que convenceu ao proprietário do terreno onde a casa foi contruída para que vendesse o terreno, porque o Jamil já havia desistido.

Quando estavam construindo o prédio em Santos onde o Jamil agora vive, o Jamilzinho disse para a mãe dele que era lá que eles iam viver juntos, o Jamil e a Rosa, descansando depois de uma vida de muita luta. Ela tinha problemas com a tiróide, na época e não quiz operar. A tiróide piorou. Só operou para tirar quando estava enorme. Ficou melhor, deram alta, mas voltou correndo para o hospital. O médico trouxe fez tudo muito rápido, mas ela não aguentou e morreu aos 72 anos. Hoje (2003) o Jamil ainda conta com saudade e é fiel ao amor de sua vida, Rosa Abrahão.


40. Jamil Assad Filho

Quando nasceu, a dedicação da Rosa à Nossa Senhora, enfim, à religião, influenciou no seu nome, ou pelo menos como passou a ser conhecido. Quando a Rosa estava grávida ela tinha 4 filhas. Ela sonhou que deu à luz um filho e que o nome dele tinha que ser Antonio. Ela acordou e disse a todos que ia ser menino e que ia se chamar Antonio. Ele nasceu e ela disse para o Jamil não esquecer de chamar de Antonio. Ele foi registrar e todo machão disse que o nome ia ser o dele, Jamil Assad Filho. Ela ficou chateada e eles foram até Aparecida do Norte para batizar a criança. O padre pediu o nome da criança e ao ouvir o nome o padre disse que na Igreja se costumava batizar com nome de Santo. Ela de imediato disse Antonio, em homenagem lógico ao Santo Antonio. Assim o nome no registro de batismo ficou Antonio Jamil Assad Filho. Ficou Toninho com a família, alguns o chamam de Jamilzinho e outros dizem Antum (abreviação ou árabe para Antonio).

Na época da guerra o Jamilzinho ia com a vó dele nas padarias do Tatuapé e ficava na fila para pegar pão porque não tinha farinha, tudo era racionado. O Jamilzinho achava sensacional sair de manhã com a vó para pegar o pão. Ele não contava para pegar pão porque era criança mas achava aquilo sensacional: ter que acordar de madrugada e ficar na fila para do pão.

Todos os domingos eles iam no Corínthians, como um obrigação, uma religião. A Rosa sua mãe ficava fazendo almoço no domingo e para descansar dos filhos o Jamil os levava para o Corínthians. O Jamil Assad punha o Jamilzinho e as irmãs no carro e iam para a praia. Alugavam a roupa de banho, trocavam de roupa na barraquinha e depois de nadar se trocavam de novo e devolviam as roupas de banho que outros alugavam.

Ele lembra quando adulto de ter levado o pai dele, Jamil Assad, para Santa Catarina para visitar o Abrahão Hiar, filho da Marie. Quando a Vilma casou ele lembra de ter ido com a Olga para ela fazer o vestido de noiva da prima pois, segundo ele, ela fazia questão de fazer os vestidos de casamento da família.

Também lembra como a sua avó, por parte de mãe eu creio, a vó "Bahia" dizia que ia para o quarto se vestir, ou que desligava a TV quando ia se trocar, porque ela achava que o homem do noticiário podia vê-la.

Formou-se em química no Colégio Osvaldo Cruz. Foi para Miami onde fez um estágio de 3 meses na Universidade de Miami. Em Miami recebeu o telefonema de uma amiga de New Jersey que o convidou para ir para New Jersey onde arrumou um emprego para ele num laboratório. Morou em Rosel Park, em New Jersey por três anos mas ficou da família e voltou. Até hoje trabalha no ramos de laboratórios. Gosta muito de viajar e conheceu vários lugares no Estados Unidos, Japão, China, Singapura, Bali, Hawaii, Marrocos, etc.

Comprou um apartamento para o pai em Santos depois do falecimento de sua mãe, Rosa, onde hoje mora o seu pai. De fim de semanas vai para Santos visitá-lo. Ele gosta muito da praia pois os pais moraram em São Sebastião por muitos anos e a praia lhe traz lembranças boas.